Os chineses estão atrasados: lucrar com o risco alheio é coisa nossa

Por Maurício Lopes

Foi na década de noventa que uma campanha publicitária de uma famosa marca nipo-brasileira, fabricante de produtos eletrônicos, se notabilizou com o slogan: “Os nossos japoneses são mais criativos que os japoneses dos outros.”

Era um tempo em que os comerciais de televisão ainda exerciam influência substancial sobre a vida das pessoas e estimulavam o consumo de maneira bastante eficiente. O bordão da Semp Toshiba acabou se popularizando no Brasil e permaneceu na memória afetiva de milhões de brasileiros por muitos anos. A frase pretendia deixar claro que os produtos fabricados no Brasil pela empresa, embora incorporassem tecnologia japonesa, eram mais criativos e adaptados às necessidades dos brasileiros do que os produtos japoneses concorrentes importados.

Pegando carona na criatividade, é de outra nação de cultura oriental, habitada por pessoas de biotipos semelhantes aos japoneses, que surgiu notícias recentes acerca de uma ideia que poderíamos classificar como um verdadeiro negócio de risco e inovador, acompanhando a evolução do mundo moderno, as mudanças climáticas que remodelam o planeta e as novas necessidades dos consumidores.

Trata-se de empresários chineses que criaram um modelo de negócio que vem provocando frisson e intensos debates nas redes sociais: simuladores de desastres naturais. Isso mesmo! Furacões, enchentes e terremotos estão entre as atrações oferecidas pela Lvxing Disaster Simulation Training Center (Centro de Treinamento de Simulação de Desastres Lvxing).

  

Cliente da Lvxing Disaster
Foto: Rede Sociais

   

Para quem deseja se aventurar em família e se embrenhar por uma densa floresta, acompanhado de esposa, filhos e sogra, existe o chamado pacote família, que pode custar aproximadamente R$ 3.800,00, com direito a treinamento de sobrevivência na natureza e resgate aquático. Quem preferir ir sozinho e enfrentar chuvas, enchentes e ventos de até 165 km/h pode adquirir o ingresso individual por cerca de R$ 695,00. Uma pechincha!

O novo modelo de negócio, como quase tudo no mundo atualmente, vem dividindo opiniões — e, em alguns casos, de maneira assustadoramente antagônica e extremista, principalmente nas redes sociais. Para alguns críticos, a iniciativa banaliza o sofrimento de quem realmente enfrenta tragédias. Para outros, trata-se de uma importante ferramenta de preparação para um futuro cada vez mais imprevisível diante das constantes mudanças climáticas que o planeta enfrenta.

Resta saber quando esse modelo de negócio desembarcará no Brasil, trazendo entretenimento e tornando o brasileiro apto a enfrentar seus desastres. Um país que não tem terremotos nem furacões em proporções semelhantes às de outras regiões do planeta, mas onde tragédias, convenhamos, nunca faltaram.

Caso apareça por aqui algum investidor disposto a entrar nesse ramo, será preciso adaptar o empreendimento às nossas necessidades. Poderíamos começar por algumas das nossas tragédias particulares que quase sempre fizeram parte de nossas vidas: uma saúde pública caótica, uma criminalidade devastadora e um abismo na distribuição da renda. Essas são apenas algumas das intempéries que desde sempre nos acometeram e que, por sinal,  terão solução apresentadas na propaganda eleitoral obrigatória que se aproxima. Afinal de contas, os nossos políticos também são sempre mais criativos que os políticos dos outros — e alguns já até lucram quando o assunto é a tragédia alheia.