O deputado federal Júlio César Lima (PSD) costuma ser confrontado com um episódio que ainda rende perguntas: o voto favorável à abertura do processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016. Sempre que o assunto volta, a explicação é praticamente a mesma: fidelidade ao partido, aos líderes e ao “time”.
Foi assim novamente nesta quinta-feira (30). Questionado sobre o voto, Júlio voltou a falar em orientação partidária e disse que, à época, seu partido era de oposição.
“Sempre fui fiel ao time que eu pertenci. Na época, meu partido era de oposição, como eu sou fiel ao partido, nós votamos a favor do encaminhamento do partido. O nosso partido hoje liberou todos os diretórios, e isto foi dito pelo presidente (Kassab), em maio do ano passado, aqui tem total liberdade”, justificou.
A memória dos registros, porém, conta uma história um pouco mais complexa (Para Júlio).
E, pelo contrário do que afirma hoje Júlio César, o PSD integrava a base do governo Dilma Rousseff. O então presidente nacional e fundador do partido, Gilberto Kassab, era ministro das Cidades. A legenda havia participado da sustentação política do governo durante boa parte daquele período. Portanto, a justificativa de que o partido era de oposição não se sustenta quando confrontada com a posição que o próprio PSD ocupava naquele momento.
Mas há uma segunda questão na explicação do deputado: a tal fidelidade aos líderes e ao “time”. Novamente, os registros mostram uma situação ainda mais conflituosa.
O PSD decidiu orientar a bancada a votar favoravelmente à abertura do processo de impeachment, mas não fechou questão. Kassab havia sinalizado que os deputados teriam liberdade para votar de acordo com a própria consciência.
O líder do PSD na Câmara à época, Rogério Rosso, explicou ao UOL: “Mudamos de liberado para favorável, mas respeitando a posição dos deputados divergentes.”
Rosso também afirmou que os parlamentares que votassem contra a orientação não seriam punidos. E houve dissidentes. Oito deputados do PSD votaram contra a abertura do processo, enquanto outros acompanharam a orientação favorável. O próprio Kassab não votou.
Ou seja: novamente, não foi uma questão de simplesmente seguir o líder do partido. A bancada tinha uma orientação, mas havia liberdade para cada parlamentar tomar sua decisão.
Júlio César votou “sim”.
E há um detalhe ainda mais interessante. Antes da votação, em março de 2016, o próprio Júlio havia dito ao GP1: “A minha decisão será pessoal.”
A fala contrasta diretamente com a explicação apresentada agora. Naquele momento, Júlio dizia que sua decisão seria pessoal. Hoje, dez anos depois, pelo fato de estar candidato ao grupo petista ele atribui o voto à fidelidade ao partido, aos líderes e ao “time”.
É justamente aí que a memória começa a pregar peças.
Júlio está correto ao dizer que o PSD orientou sua bancada a votar favoravelmente ao impeachment. O que não se sustenta, à luz dos próprios registros, é transformar aquela orientação em uma espécie de obrigação partidária ou dizer que o partido era oposição ao governo Dilma.
O PSD estava na base. A bancada foi orientada a votar pelo impeachment. Os divergentes foram liberados e não seriam punidos. E o próprio Júlio dizia, antes da votação, que sua decisão seria pessoal.
No fim das contas, o deputado votou seguindo a orientação majoritária da bancada.
O problema é que, dez anos depois, a explicação mudou pela conveniência.
A política muda. Os grupos mudam. Os aliados também. Os fatos, não!