De acordo com a pesquisa realizada e divulgada em abril de 2023 pelo CDC (Centers for Disease Control and Prevention), órgão vinculado ao governo dos Estados Unidos, estima-se que o Brasil possa ter atualmente 6 milhões de autistas ou mais. Atualmente, não há nenhuma pesquisa no país, e o Censo não trouxe qualquer resultado a respeito disso ainda.
Estudos da SBP - Sociedade Brasileira de Pediatria avaliaram 98 pacientes, sendo 75,5% do sexo masculino, com idade mediana de 8,5 anos (variando de 2,5 a 14 anos). Os principais diagnósticos foram Transtorno do Espectro Autista (53%) e déficit intelectual (46,9%). As razões mais comuns para a prescrição de medicamentos foram agressividade (76,5%) e agitação (43,8%). A Risperidona foi o medicamento mais prescrito (85,7%), seguido por periciazina (6,1%). Efeitos adversos notáveis foram ganhos de peso (15,3%) e aumento de apetite (10,2%). O estudo mostrou alterações em 72,4% dos pacientes. Em relação à evolução clínica, os pais relataram melhora favorável em 96,94% dos casos.

Alguns medicamentos de uso controlado, como a Risperidona, são distribuídos pelo Ministério da Saúde através do Sistema Único de Saúde (SUS) para as Secretarias Regionais e Municipais de Saúde. Residente em Timon-MA, cidade vizinha da capital do Piauí, um homem que preferiu não se identificar concedeu entrevista exclusiva ao Central Piauí, falando sobre a falta do medicamento essencial para o tratamento de crianças com espectro autista, a Risperidona, nas Unidades Básicas de Saúde e no Centro de Atenção Psicossocial - CAPS. Em conversa com o Central Piauí, o homem pediu ajuda para comprar o medicamento para seu filho, o pequeno Fellyphe Leví, de 5 anos de idade, que está em investigação de diagnóstico de grau 3 de autismo.
O responsável por Fellyphe diz que o medicamento dura pouco tempo e é caro. Pelo fato de estar sozinho com a criança e não ter com quem deixar o seu filho, acaba abrindo mão dos serviços para cuidar do menino, que necessita de uma atenção especial. O pai da criança ainda relatou que a cada dois meses tem consulta marcada com o médico da UBS próximo à sua casa para pegar a receita e coletar posteriormente no CAPS de Timon.
“Quando não tem o remédio no CAPS, eu fico pedindo ajuda aos meus colegas que sabem da minha situação. Estou tentando pegar desde dezembro. Estou com 2 meses que não falo com o doutor dele porque estava doente. Então agora vou falar com o doutor dele só em março. Estou há quase 4 meses que não falo com o doutor dele (Fellyphe), o psiquiatra”, disse.
Em narração, o pai do menino diz que os profissionais de saúde do CAPS de Timon pedem paciência a ele quando vai em busca de informações sobre a chegada do medicamento. Assim, ele termina administrando o medicamento, a fim de evitar que acabe rapidamente.
“Eu pergunto que dia vai chegar, a mulher diz para eu ter paciência porque tinha acabado”, proferiu. “Se eu der todo dia, só dura 15 dias, porque eu dou 2ml de manhã e 0,5 à noite, e às vezes eu nem dou todo dia para durar mais tempo, porque não tem o remédio no CAPS e é caro, e como não trabalho, fico sem ter como comprar”, disse.
Pedindo ajuda
A preço médio de mercado, o medicamento custa R$ 120,00, variando de região em região. Sem ter como trabalhar, o pai de Fellyphe Leví vive de doações.
Para doações segue a chave PIX; 86 98811-2506
“Já botei no Facebook pedindo ajuda porque não tinha no CAPS. Isso não acontece nem a primeira vez. Estou reclamando para meu em porque nós precisamos desse remédio. Moro sozinho com meu filho. Ele tem 5 anos, a mãe o abandonou quando tinha cinco meses de idade. Deixei de trabalhar para cuidar dele e não é fácil”, disse. “Às vezes eu recebo doação três vezes vidros (da medicação) e às vezes tem pessoa que está precisando. Quando chega lá, não tem e eu ajudo muitas pessoas, mas hoje eu estou precisando”, pontuou.
Especialista
Questionada sobre o assunto, a neurologista Graça Campos falou sobre as consequências que a falta desse medicamento pode ocasionar e ressaltou que a Risperidona, nas dosagens corretas, deve ser alinhada ao tratamento acompanhado junto ao profissional da área.
“O Risperidona é usado em crianças com espectro autista por causa do comportamento agressivo que algumas têm para melhorar essa irritabilidade, esse comportamento agressivo, às vezes raiva, ansiedade que essas crianças têm. Se faltar a medicação, o que vai acontecer é que a criança vai continuar irritada, agressiva, tendo crise de raiva, o que significa que vai ter um comprometimento no tratamento da criança, mas o que eu vejo é que o mais importante que existe é a terapia”, explicou a neuropediatra.
Versão da Prefeitura de Timon-MA
A Secretaria Municipal de Saúde do município de Timon (SEMS) foi procurada para responder sobre a falta e qual a previsão de chegada de um novo lote do medicamento. Em nota, a SEMS respondeu que a aquisição do medicamento é de responsabilidade do estado. Confira a nota na íntegra.
A Secretaria Municipal de Saúde de Timon informa que, na semana passada, adquiriu lotes de Risperidona líquida e distribuiu imediatamente para as unidades dos Centros de Atenção Psicossociais (CAPSs). É importante destacar que, de acordo com a Portaria nº 1554 de 30 de julho de 2013, do Ministério da Saúde, é obrigação das Secretarias Estaduais de Saúde financiar, adquirir e dispensar à população a Risperidona. Contudo, ainda que não seja obrigação do município, ciente da alta procura.