Quem tem navegado pela internet nos últimos dias com certeza deve ter se deparado com a trend da Ghibli. A nova febre consiste em utilizar um filtro alimentado por inteligência artificial (I.A.) que transforma fotografias em desenhos no estilo do estúdio japonês, famoso por produzir animações como A Viagem de Chihiro e Meu Amigo Totoro. A moda foi adotada por figuras do mundo dos esportes, artistas e até políticos, como o governador do Piauí, Rafael Fonteles.
O que muitos não sabem é que um dos criadores do Estúdio Ghibli, o diretor Hayao Miyazaki, é um crítico ferrenho do uso da inteligência artificial para dar vida a pinturas. Com a explosão da trend, viralizou também uma fala do diretor, parte de um documentário japonês, em que ele condena a utilização de máquinas para criar desenhos.
"Eu sinto que isto é um insulto à própria vida", comentou o diretor no documentário de 2016.
Reprodução
Inteligência artificial "tira a poesia" da arte, diz artista maranhense
Jonas Vicente, maranhense formado pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) que trabalha como artista e professor de arte em Teresina, critica o uso de máquinas para a produção do que ele chama de "processo sem vida". Para Vicente, trends como o da Ghibli apenas copiam um estilo artístico já existente, sem dar crédito aos criadores originais daquela arte, além de criar um tipo de desenho que o professor classifica como "mecânico" e "sem vida".
"O que a I.A. faz é pegar esse acúmulo de produções artísticas que já existem, que são colocados na internet, a I.A. tem acesso à internet. Faz isso, pegando essas produções, muitas vezes desrespeitando os direitos autorais dessas produções dos artistas que se esforçaram tanto e faz um cálculo estatístico sobre como, por exemplo, no caso do estúdio Ghibli, como são desenhados os olhos, ai [a I.A] pensa estatisticamente como os olhos são desenhados e tenta reproduzir pixel a pixel como isso se faz. Ou seja, ela pega um processo criativo e transforma em algo mecânico, sem vida [...] Tira a poesia da coisa, tira a vida do produzir arte", explicou.
O professor de arte produz desenhos comissionados, além de postar suas produções em seu Instagram, @vincentearte. Ele comenta ainda que a popularização da trend desrespeita a propriedade intelectual de animadores e culpa as grandes empresas de tecnologia que lucram com a "normalização" da inteligência artificial.
"Muitas dessas obras que são colocadas nessas trends que estão viralizando agora, elas não estão sob domínio público, elas tem seus direitos autorais. Ou seja, existe uma produção coletiva muito grande que acaba sendo desrespeitada por essas big techs. São as big techs mais uma vez desrespeitando a propriedade intelectual, propriedade autoral de artistas", acrescenta Vicente.
Dê sua opinião: