Boas-vindas ao Ano Novo que já conhecemos

Por Maurício Lopes

Ao assistir às tradicionais retrospectivas de fim de ano, que ocupam a grade de programação das emissoras nesse período, percebe-se que elas revelam menos um balanço do tempo que se encerra e mais um prenúncio do que está por vir. As catástrofes ambientais exibidas com imagens impactantes não são meros registros do passado recente: funcionam como um trailer inquietante do futuro imediato. A criminalidade que assola nossas cidades, narrada por âncoras engravatados nas últimas semanas de dezembro, tampouco se limita ao que marcou 2025 — seguirá fazendo parte da rotina no ano que se aproxima. O mesmo vale para os escândalos nos bastidores da política brasileira, protagonizados ao longo dos doze meses que agora se despedem, mas que dificilmente respeitarão a virada do calendário.

“A história simplesmente se repete. O que foi feito antes será feito outra vez. Nada debaixo do sol é realmente novo.” O excerto bíblico talvez não seja o mais indicado para estampar, com caracteres especiais, um cartão de boas-festas. Ainda assim, ele corrobora perfeitamente o estado de espírito de um escriba acometido da clássica síndrome de fim de ano. Aos mais radiantes, otimistas e ansiosos por um ano vindouro auspicioso, sugiro recorrer a um velho conhecido — melancólico na medida certa —, o poeta Carlos Drummond de Andrade, que reaparece religiosamente a cada dezembro lembrando que “quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar ao limite da exaustão”.

Para nós, brasileiros, 2026 chega temperado com especiarias típicas de tempos tidos como esperançosos: Teremos eleições, nas quais as promessas se acenderão como fogos de artifício na propaganda obrigatória. Haverá também o sonho do hexacampeonato, embalado por um novo e célebre técnico e por nosso principal craque em ritmo de recuperação, ambos convocados à conduzir a seleção canarinho rumo ao tão aguardado hexa. Soma-se a isso o robusto salário mínimo recém-anunciado, comemorado por aqueles que não se sentam à mesa dos banquetes secretos das verbas, jetons e “rachadinhas” espalhadas aqui e acolá.

A quem ainda cultiva esperanças, que as regue diariamente com afinco — e, se possível, com a água generosa do Rio Parnaíba ou do Poty — como quem cuida do jardim secreto da própria existência. Desejo, sinceramente, saúde. Sobretudo a emocional. A todos os brasileiros dignos de merecer a sorte do mundo, e que carregam, ano após ano, as mesmas mazelas que se repetem como estações teimosas, sempre à espera de uma casta inepta que jamais consegue saná-las por completo.

Quanto a mim, sempre cético e de niilismo aflorado, sigo a cantarolar Cazuza, que já enxergava “um futuro a repetir o passado e um museu de grandes novidades”. Ergo, assim, um brinde ao Ano Novo que se aproxima — mesmo sendo, no fundo, o velho ano de sempre: previsível, repetitivo e reincidente. Que o calendário nos seja mais generoso do que a história.