Quarta, 22 de julho de 2026, 19:09

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COLUNA

O foie gras entrou em pauta no país da feijoada

Por Maurício Lopes

Quem, entre os leitores desta coluna, já se sentou à mesa de um restaurante e pediu um foie gras para acompanhar um vinho em um tranquilo almoço de domingo? Ou, sendo mais específico, qual teresinense já amanheceu no Mercado da Piçarra decidido a curar a ressaca da noite anterior degustando um gorduroso fígado de ganso? Sem querer subestimar ninguém, arrisco dizer que poucos responderão afirmativamente. Se aportuguesarmos a pronúncia da expressão francesa, poderíamos dizer algo como "fuá grá". "Fuá", como no final de Mafuá, o tradicional bairro de Teresina; "grá", como a primeira sílaba de grátis, do almoço de fim de semana filado na casa da sogra. Fuá grá — fígado gordo. Simples assim

O foie gras é uma tradicional iguaria da culinária francesa e um dos maiores símbolos da alta gastronomia. Nos últimos dias, entretanto, deixou as mesas sofisticadas dos restaurantes para ocupar o centro de um debate político e ético no Brasil.

Mas o que pode ameaçar um produto vendido enlatado como sardinhas ou servido em pratos ornamentados, chegando a custar quase R$ 950 por apenas 145 gramas? A resposta não está na economia, nem na concorrência, tampouco na inflação. Está na forma como ele é produzido. Na administração, costuma-se chamar de fatores externos tudo aquilo que interfere diretamente em um negócio sem que o empreendedor tenha controle sobre a situação. Podem ser mudanças econômicas, desastres naturais, alterações na legislação ou pressões da sociedade. No caso do foie gras, o fator externo atende pelo nome de proteção animal.

Para produzir essa iguaria, patos e gansos são mantidos em espaços extremamente reduzidos e submetidos, durante cerca de duas semanas, a um processo de alimentação forçada. Tubos são introduzidos em seus esôfagos diversas vezes ao dia para que consumam uma quantidade de alimento muito superior ao normal. O objetivo é provocar uma esteatose hepática — o chamado "fígado gordo" — fazendo com que o órgão aumente várias vezes de tamanho. Organizações de proteção animal afirmam que esse processo provoca intenso sofrimento aos animais, comprometendo sua mobilidade e causando-lhes falta de ar.

  

Animal Equality Foto:Divulgação

   

Embora o consumo e a comercialização do foie gras sejam permitidos no Brasil, a produção nacional por meio desse método não é permitida. Recentemente, o debate ganhou novo fôlego com a tramitação do Projeto de Lei nº 90/2020, que busca proibir a comercialização de produtos obtidos por alimentação forçada de animais. Caberá ao Presidente da República decidir, dentro do prazo constitucional, se sanciona ou veta a proposta aprovada pelo Congresso. Creio que a decisão penderá em favor dos patos e dos gansos franceses e que o tema não será tão indigesto para o Executivo, justamente por não se tratar de um prato enraizado na cultura gastronômica nacional. Ao que tudo indica, o número de apreciadores do foie gras no Brasil é irrisório. Agora, se um dia resolverem mexer nas receitas da nossa tradicional panelada nordestina, preparada com tripas e barriga de boi, ou da saborosa feijoada carioca, regada a pés, orelhas e couro de porco, aí sim o caldo vai engrossar.

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