Quem nunca ouviu falar daquele trabalhador CLT que arruma um “atestado providencial” para faltar na segunda-feira? Ou do famoso “gato” — o furto de energia e água, tratado por alguns quase como uma travessura, contado entre risadas nas calçadas e mesas de bar, como se fosse apenas mais uma demonstração da criatividade brasileira para driblar boletos? E quem passou pela escola sem conhecer a tradicional “pesca” — ou a famosa “cola”, para os sulistas — usada para arrancar aquela média salvadora no fim do ano letivo? Pequenos delitos acadêmicos transformados em histórias folclóricas de sobrevivência estudantil.
Todas essas atitudes, muitas das vezes, foram desgraçadamente levadas à condição do tão romantizado “jeitinho brasileiro”. Práticas pouco ortodoxas que fizeram parte de um pacote cultural que, durante décadas, o brasileiro aprendeu a tratar com certo orgulho afetivo. Uma mistura de malandragem, improviso e esperteza social vendida quase como patrimônio imaterial da sobrevivência nacional. Não por acaso, até os gibis ajudaram a romantizar essa figura. O eterno Zé Carioca — do qual eu era leitor assíduo —, símbolo clássico da malandragem tropical, era tão picareta que vivia fugindo de uma empresa fictícia criada apenas para lhe cobrar dívidas: a hilária ANACOZECA - Associação Nacional dos Cobradores do Zé Carioca.
E, fora dos quadrinhos, já se produziu até celebridades do golpe. Tivemos o caso do homem que se passou por herdeiro de uma das maiores companhias aéreas do país, circulando entre empresários, jornalistas e integrantes da alta sociedade em festas luxuosas no Recife, viveu cercado de privilégios e ainda virou personagem de série. Entre entrevistas, palestras e manchetes, quase ganhou status de herói nacional e acabou sendo reconhecido como o maior golpista do país de forma apoteótica.
Mas a situação deixou de ser folclórica há muito tempo. Com o avanço da internet, o jeitinho brasileiro passou a frequentar diariamente a tela do celular dos brasileiros — e não mais apenas as rodas de conversa ou as histórias em quadrinhos. Segundo pesquisa divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha, 83,2% dos entrevistados afirmaram ter mais medo de cair em um golpe virtual do que de serem assassinados em um assalto ou sofrerem violência sexual. E não é para menos: foram mais de 26 milhões de vítimas nos últimos 12 meses. O golpe virou epidemia nacional. Hoje, o brasileiro atende o telefone já desconfiando da própria operadora, da voz dos filhos, do gerente do banco e, até da mensagem de “bom dia” no WhatsApp.
O fato é que sempre convivemos com certa tolerância à esperteza cotidiana. Uma parte dos brasileiros aprendeu a admirar quem “dá um jeito”, quem burla o sistema sem aparentemente causar grandes danos. O problema é que existe uma linha tênue entre a pequena infração romantizada e um crime de grande monta, ou seja: num dia, entrega-se um atestado falso sem estar doente. No outro, leva-se um aposentado ao caixa de um banco sem estar vivo. E é exatamente nesse momento que o “jeitinho brasileiro”, antes tratado como algo inofensivo e quase simpático, deixa de ser jeitinho — e vira um jeitão macabro.

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