Sábado, 09 de maio de 2026, 08:51

Lucas Sousa

COLUNA

Afinal, dá para acreditar em instituto de pesquisa?

Por Lucas Sousa.

Depois das eleições municipais de 2024 em Teresina, os institutos de pesquisa passaram a enfrentar um forte desgaste no Piauí, principalmente na capital (Sem julgar o mérito dos candidatos, apenas análise sobre o resultado dos institutos). O motivo ainda está muito vivo na memória dos eleitores: boa parte das pesquisas divulgadas durante a campanha apontava o então candidato Fábio Novo como favorito e até vencedor no primeiro turno. O resultado das urnas foi outro. O prefeito Silvio Mendes venceu ainda no primeiro turno.

Desde então, toda nova pesquisa divulgada no estado passou a ser analisada com muito mais desconfiança.

Institutos como Credibilidade, Amostragem e Datamax, que erraram o cenário da capital em 2024, já voltaram a divulgar levantamentos para as eleições de 2026. E todos eles apresentam um roteiro parecido: o governador Rafael Fonteles (PT) liderando com folga diante do pré-candidato da oposição, Joel Rodrigues.

Mas nesta sexta-feira (08), uma nova pesquisa divulgada pelo instituto Veritá colocou um ponto de desconfiança sobre o mesmo. Instituto de abrangência nacional, trouxe um cenário completamente diferente dos levantamentos locais e colocou Joel Rodrigues numericamente à frente de Rafael Fonteles pela primeira vez.

E foi exatamente aí que o debate voltou com força: afinal, em qual instituto acreditar?

O que chama atenção no caso do Veritá é justamente o histórico recente. Enquanto boa parte dos institutos regionais errava a eleição de Teresina em 2024, o Veritá apontava vitória de Silvio Mendes ainda no primeiro turno, cenário que acabou se confirmando nas urnas.

Este colunista foi além e analisou o desempenho recente do instituto em outras disputas eleitorais.

Nas eleições de 2022, o Veritá conseguiu se aproximar dos resultados finais em diversos estados do Nordeste nas últimas rodadas divulgadas antes do primeiro turno. Maranhão, Paraíba, Alagoas, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí estiveram entre os cenários em que os números apresentados pelo instituto ficaram próximos do resultado consolidado nas urnas.

Nos estados nordestinos onde houve segundo turno, Bahia, Sergipe e Pernambuco o instituto também conseguiu desempenho competitivo nas projeções finais.

Para reforçar ainda mais o retrospecto do instituto, este colunista foi atrás dos números para o Senado nas eleições de 2022. O Veritá acertou o resultado em seis dos nove estados do Nordeste nas últimas rodadas divulgadas antes da eleição. Um dos acertos foi justamente no Piauí, ao apontar a vitória de Wellington Dias sobre Joel Rodrigues por uma margem apertada, cenário que acabou se confirmando nas urnas. Os únicos estados nordestinos em que o instituto não conseguiu cravar o resultado para o Senado foram Rio Grande do Norte, Sergipe e Paraíba.

ERROU:

Na pesquisa divulgada nesta sexta-feira, Rafael Fonteles aparece liderando na espontânea com 50,0%, contra 47,01% de Joel Rodrigues. Já no cenário estimulado, Joel surge com 44,1% e Rafael com 43,6%, configurando empate técnico dentro da margem de erro.

Mais do que os números, o impacto político da pesquisa está no ambiente que ela cria.

A divulgação de um levantamento mostrando Joel competitivo muda o clima político, principalmente nos bastidores.

Pesquisa eleitoral não serve apenas para medir intenção de voto. Ela influencia discurso, movimenta lideranças, anima aliados, assusta adversários e interfere diretamente na construção das alianças políticas.

Um prefeito indeciso olha pesquisa.
Um deputado olha pesquisa.
Um partido olha pesquisa.
Até empresários e financiadores de campanha observam o ambiente criado pelos números.

É justamente por isso que o debate sobre credibilidade dos institutos ganhou tanta importância no Piauí.

Os erros de 2024 deixaram marcas profundas. E não apenas nos institutos. Parte da classe política passou a questionar metodologias, amostragens e até interesses por trás de determinadas divulgações.

Nos bastidores, existe hoje uma percepção clara: mais do que retratar o cenário eleitoral, algumas pesquisas acabam sendo usadas como instrumentos de construção de narrativa política.

E isso vale tanto para governo quanto para oposição.

O governo precisa manter a imagem de favoritismo e estabilidade política. Já a oposição necessita criar ambiente competitivo para evitar a sensação de eleição decidida antes da campanha começar.

No fim das contas, toda pesquisa continua sendo apenas um retrato do momento, baseado em uma pequena amostragem do eleitorado. Institutos acertam, erram, influenciam e também são influenciados pelo ambiente político.

No Piauí de hoje, pesquisa deixou de ser apenas estatística eleitoral. Virou ferramenta de disputa política, combustível de bastidor e peça na guerra de narrativa que antecede 04 de outubro deste ano.

Mas, como sempre, a única pesquisa que realmente vale continua sendo a das urnas.

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