“Queima total de fim de ano!!!” É geralmente com essa exclamação, acompanhada de letras garrafais, que as grandes lojas de departamentos de todo o Brasil tentam atrair consumidores. A mensagem é simples: é preciso renovar o estoque para o ano novo — e, para isso, nada melhor do que vender a qualquer custo aquilo que ficou encalhado nas prateleiras durante o ano. É a velha estratégia comercial: baixar o preço, aumentar o volume das vendas e convencer o consumidor de que ele não pode deixar passar aquela oportunidade imperdível.
No Nordeste, e mais especificamente no Piauí, o marketing também costuma pegar carona em outra época do ano para impulsionar as vendas. E aí entra em cena o nosso conhecido BR-O-BRÓ, expressão genuinamente piauiense que reúne as últimas sílabas de setembro, outubro, novembro e dezembro — justamente os meses tradicionalmente associados às temperaturas mais elevadas no estado. E tome propaganda de ar-condicionado. E tome gente sorrindo dentro de uma sala refrigerada, como se tivesse acabado de descobrir o Polo Norte. E tome comercial de cerveja gelada, com a garrafa sendo aberta por uma modelo seminua.
Não há nada de errado em transformar uma adversidade em oportunidade. É empreendedorismo puro. O piauiense, aliás, especializou-se nisso. Nosso calor pode virar “calor humano”; o sol inclemente pode virar cartão-postal; a temperatura de mais de 40 graus pode ser convertida em argumento de venda. Naquela sexta-feira de novembro, por exemplo, por que não inventar uma espécie de “ Hot November Black Friday”? É a economia funcionando em temperatura máxima.
Acontece que o nosso calor de cada dia, tão bem representado nessa curiosa expressão popular, está ganhando um ingrediente novo — e este nada romantizado. O mundo está esquentando. E o Piauí, que há muito tempo se orgulha de ter “um sol para cada habitante”, começa a experimentar uma realidade em que o velho BR-O-BRÓ pode deixar de ser apenas uma peculiaridade climática e cultural para se tornar parte de um problema muito maior.
A Organização Meteorológica Mundial confirmou que 2024 foi o ano mais quente já registrado, com temperatura média global de aproximadamente 1,55 °C acima da média de 1850-1900. Mas a notícia não parou ali: em 2025, a temperatura ficou 1,44 °C acima dos níveis pré-industriais, fazendo daquele ano um dos três mais quentes da história. E agora, um novo relatório da ONU alerta que o planeta caminha para ultrapassar de forma persistente o patamar de 1,5 °C, embora ainda seja possível limitar a intensidade e a duração desse excesso. O sinal de alerta acendeu assustadoramente.
Do cientifiquês para o piauiês: o mundo tá frevendo, meu fi!
A comunidade científica há anos alerta que o aumento da temperatura global favorece a ocorrência de eventos extremos, como ondas de calor, secas, chuvas intensas e incêndios. Ao mesmo tempo, a redução das emissões de gases de efeito estufa tornou-se uma necessidade cada vez mais urgente. Eventos como o que aconteceu recentemente no Nepal serão mais rotineiros e potencializados.
Será o nosso BR-O-BRÓ piauiense diferente do que a ciência chama de aquecimento global?
Um é a maneira espirituosa que o piauiense encontrou para batizar os meses mais quentes do ano, e eventualmente tirar proveito comercial ou turístico disso. O outro é um fenômeno planetário, impulsionado principalmente pela ação predatória humana e pelo acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera. O BR-O-BRÓ é algumas vezes subjetivo, uma percepção popular do calor. Já o aquecimento global é objetivo, um fenômeno mensurável cientificamente. O primeiro pode até soar engraçado; o segundo não tem graça nenhuma.
Podemos sim, continuar usando nosso clima como 'pano de fundo' para vender ar-condicionado, dindin, ventilador, gelo e a camiseta com a frase “Teresina nos dá calor em forma de amor — e uma overdose de vitamina D."Podemos continuar fazendo piada com o sujeito que frita um ovo no asfalto , e até contar aquela anedota surrada que diz que o urubu no Piauí voa com uma asa só, e a outra utiliza de leque para abanar a cara. O bom humor, aliás, tem salvado o brasileiro em muitas ocasiões.
Agora, falando sério, é preciso, individualmente, evitar exposição prolongada ao sol causticante, muitas vezes romantizado em verso e prosa. É necessário contribuir, cada um ao seu modo, para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. No âmbito das ações governamentais, somente medidas firmes dos principais líderes mundiais poderão eventualmente minimizar os efeitos catastróficos do aquecimento global. O problema cresceu. E cresceu muito. Campanhas educativas, restritas ao uso do velho mote “jogue o lixo no lixo”, já não surtem mais efeito. O clima esquentou. E, se continuarmos usando estratégias ultrapassadas — tal qual se usa nos antigos comerciais que tentam alavancar vendas em “queima de fim de ano” —, estaremos fadados a experimentar, cada vez mais, temperaturas elevadas. Dessas que nos remetem à QUEIMA TOTAL. Assim mesmo, em caixa alta. Como um fogo de FIM DO MUNDO.