Lamentavelmente, o conceito outrora respeitável que empresas e empresários ostentaram por décadas no Brasil está, aos poucos, sendo depreciado por um naco significativo da classe. Aquilo que já simbolizou iniciativa, trabalho e progresso hoje ocupa espaço, com notável desenvoltura, nas páginas policiais e nos escândalos de toda ordem, engendrados tanto nos meandros da política recente quanto nos vícios da velha política brasileira. Vira e mexe, surge uma organização impecável no papel: CNPJ ativo, certidões atualizadas, endereço físico, títulos pendurados na parede e discurso afinado sobre “governança” e “compliance”. Tudo absolutamente dentro da lei — ao menos até a próxima concorrência pública.
É um banco criado para remunerar correntistas, mas que rende mesmo são manchetes à jornalistas especializados em escândalos. Uma multinacional bilionária que, entre slogans verdes e campanhas de sustentabilidade, queima o erário como combustível de sua engrenagem. Empreiteiras concebidas não para construir pontes ou edifícios, mas para cavar túneis de acesso privilegiado aos cofres públicos, erguendo alicerces que sustentam esquemas bilionários.
O esgarçamento conceitual da atividade desceu a tal ponto que já transbordou para os programas policiais no “pingo do meio-dia”. Nas reportagens que percorrem ruas, becos e vielas, quando um batedor de celulares — que os revende na Praça da Bandeira — é preso e hesita ao informar sua profissão, logo surge no rodapé da TV um título coringa, pronto para preencher qualquer vazio: EMPRESÁRIO. Ao telespectador fiel da programação, resta então a dúvida incômoda e quase filosófica: afinal, a sentença adequada seria “CPF cancelado” ou “CNPJ cancelado”?
Logo nas primeiras semanas do ano, como manda o figurino, tivemos mais uma ação da nossa operosa Polícia Federal, solenemente batizada de Overclean. O nome que sugere assepsia, trata-se de mais uma tentativa de varrer a sujeira de organizações criminosas especializadas em desviar recursos públicos por meio da “gentileza administrativa”, que permite a vitória de empresas previamente escolhidas, com o consequente superfaturamento de contratos, e uma avenida aberta para novas falcatruas.
Outro caso sob a mira das autoridades desde 2024 é o do Banco Master. Empresa que parece ter deixado de lado sua função original — intermediar recursos, captar poupadores e conceder crédito — para se dedicar a um tipo peculiar de negócio, tão exótico que ainda não encontra lugar na Classificação Nacional de Atividades Econômicas-(CNAE). A cada dia, soma-se um novo capítulo a uma novela sem fim — digna dos roteiros de escritores como o recém-falecido Maneco Vargas. Só que, ao contrário de ficção à brasileira, o enredo aproxima-se irremediavelmente de uma facção brasileira, e com chances de ostentar brevemente o Oscar da Corrupção no país.
Em meio a todos os espetáculos intermináveis de escândalos envolvendo um segmento tão importante para o crescimento do país, resta-nos apenas aplaudir os empresários de mãos limpas e as empresas que ainda erguem a decência como bandeira de mercado. Que eles, ao lado das entidades que zelam pela ordem, consigam preservar o que ainda resta de conceito profícuo que sustenta seus nomes e suas empresas — e resistam para que a política viciada não os arraste para o mesmo pântano onde tantos já se instalaram há décadas. Aquele pântano onde o senso comum, com amarga ironia, decretou que: todo político é ladrão!

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