Domingo, 15 de fevereiro de 2026, 19:41

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COLUNA

Que tipo de samba vai tocar seu carnaval?

Por Maurício Lopes

O que fazer no Carnaval quando não se gosta da folia propriamente dita? O que faz um típico arredio, desses que temem as grandes aglomerações ou que são avessos às atividades momescas que compõem o cardápio oficial deste período? Pega a estrada de bicicleta? Refugia-se num retiro onde uma grei de silenciosos compartilha propósitos e se afasta do som estridente dos trios, dos passos ritmados dos sambistas e da maisena que, em fevereiro, parece ter mais utilidade nas batalhas festivas do que no mingau ralo de quem já não pode se esbaldar num prato de carne antes de dormir num sábado de Carnaval?

Tenho dito diversas vezes que acabo repetindo meus próprios rituais, como uma escola de samba de enredo único: todos os anos danço os mesmos passos, revejo os mesmos filmes, escuto os mesmos sambas e, ao final, sempre reencontro com a voz tonitruante anunciando “nota dez” para a agremiação que escolho a cada ano, conforme o enredo que mais me toca. Talvez a única novidade que eu cometa nesse Carnaval seja ler um livro antigo vindo de um sebo da cidade da folia, Os que bebem como os cães, do escritor piauiense Assis Brasil, e antes mesmo de iniciar, já estabeleço um liame inevitável com aqueles que, neste dias de festas, pretendem beber como cachorro — sem medida e sem freio — enquanto me pego pensando que a literatura, por vezes, antecipa o alerta que a experiência confirma: vá com cuidado!!

No quesito cinema de YouTube, acabo de rever Orfeu Negro, inspirado na peça de Vinícius de Moraes e temperado pela mitologia grega: a história é conhecida e coincide com o momento — Eurídice foge de um perseguidor implacável, um stalker dos anos 60, e, em meio à ebulição carnavalesca do Rio de Janeiro, encontra um amor proibido, folia e tragédia, tudo ao mesmo tempo, como só o período momesco sabe costurar e as quartas-feiras de cinzas não conseguem, por vezes, resumir na tela de um programa policial tudo de ruim que uma ressaca de carnaval tenta disfarçar sob o brilho efêmero do confete.

Um feriado de Carnaval também é um período de suma importância para quem deseja escapar da rotina que nos impele as grandes cidades e os centros urbanos de todos os cantos — e também das frivolidades repetidas do dia a dia. Quem deseja a folia, que “folie-se” como lhe convier: aos religiosos praticantes, que se aproximem ainda mais de sua fé; aos que preferem o recolhimento, que encontrem sossego. Quem gosta de uma rede balançando no interior, ao som relaxante de uma chuvinha fina — e a Defesa Civil já alertou que vai sobrar pancadas — que aproveite o compasso das águas como trilha particular. Curta seu samba, sem a obrigação de ter que desfilar na avenida dos outros. Faça o carnaval do seu jeito!

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