De repente, o tema tomou de assalto os noticiários. Em todos os cantos, pesquisas dão conta de um país mergulhado em dívidas. Os números falam por si — e, como todo número que se preze, assustam mais quando repetidos: um em cada cinco brasileiros pesquisados está inadimplente; 67% dos entrevistados afirmam possuir algum tipo de empréstimo; 41% recorreram a amigos e familiares. Este último dado, talvez o mais silencioso, é também o mais ruidoso — porque não há planilha que comporte o desgaste de um relacionamento quando o binômio dinheiro e parentesco entra em cena, ainda mais em tempos de ânimos políticos já inflamados.
Para reunir essas informações e dar forma a este texto, aventurei-me por portais de notícia diversos, e até que foi fácil encontrar esses dados e resumi-los. Difícil mesmo foi driblar um verdadeiro campo minado de anúncios — uma arapuca virtual cuidadosamente montada. A cada clique, surgia um convite irrecusável: um par de tênis “imperdível”, uma promoção “por tempo limitado”, um banner piscando com a insistência de quem não aceita ser ignorado. Tudo conspirando, com eficiência quase didática, para me empurrar exatamente na direção contrária do equilíbrio financeiro: o lado oculto da conta que nunca fecha no fim do mês.
E não faltam estímulos. O consumo, hoje, parece ter se sofisticado na arte da sedução. Especialistas em finanças pessoais se multiplicam, armados com gráficos, estatísticas, anedotas e boas intenções, repetindo o mantra mais antigo — e talvez o mais ignorado — da economia doméstica: não gaste mais do que você ganha. Parece simples, quase ingênuo. O problema é que, no mundo contemporâneo, o simples foi rebaixado à condição de insuficiente.
A bicicleta, por exemplo, que foi por um bom tempo símbolo de economia e sustentabilidade era um meio de transporte democrático. Mas eis que o mercado, sempre criativo, tratou de reinventá-la: hoje, há modelos que custam o equivalente a um pequeno imóvel, equipados com tecnologia de ponta e destinados a um público que pedala mais por status do que por necessidade. O mesmo se pode dizer do miojo — outrora solução modesta para dias apertados — que, em mãos mais ousadas, ganhou versões adornadas com lascas de trufa negra, transformando o improviso em experiência gourmet.
Outro dia, deparei-me com um vídeo antigo de uma professora de economia, já falecida, que dizia, com certa ironia, que nos Estados Unidos a identidade do cidadão se resume ao cartão de crédito e à carteira de motorista. Mais do que documentos, seriam símbolos de pertencimento a uma engrenagem que enxerga o indivíduo antes de tudo como consumidor. Ter crédito, consumir, circular — eis o tripé que sustenta o modelo e endivida as famílias. Não deixa de ser curioso como essa lógica, em maior ou menor grau, parece ter atravessado fronteiras e se instalado por aqui com notável naturalidade.
Com a aproximação de mais um ciclo eleitoral, é provável que o tema ganhe novos contornos. Não será surpresa se surgirem promessas de “limpar o nome” do cidadão - pelo menos daqueles que estejam rigorosamente em dia com suas obrigações eleitorais — ao menos essas. Até lá, segue o brasileiro comum, equilibrando-se como pode e mimetizando o nosso herói brasileiro – Tiradentes - homenageado do mês, que sempre foi estampado nos livros de História do Brasil com a corda no pescoço.

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