Quarta, 04 de fevereiro de 2026, 01:30

Xadrez na Política

TRANSFOBIA

Brasil: um país transfóbico

Arnaldo Eugênio Doutor em Antropologia

Segundo um dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA, 2025), com os dados de 2024, o Brasil é um país transfóbico, onde centenas de pessoas transexuais e travestis são, brutalmente, assassinadas. Mesmo com uma leve redução de 16% nas mortes em 2024, o país ainda lidera, pelo 16º ano consecutivo, os maiores índices globais de assassinatos desse grupo populacional.

Assim, o dossiê da ANTRA (2025) mostra que o Brasil continua sendo um dos países mais letais do mundo para as pessoas transexuais e travestis, diante das 122 mortes registradas em 2024. Onde a dignidade humana, o direito ao corpo e o direito à vida são negligenciados, como uma forma de punição à condição de pessoas transexuais e travestis.

O perfil das vítimas mostra que a maioria são mulheres trans, jovens, negras, pobres e nordestinas. Majoritariamente, os crimes ocorrem em locais públicos, como ruas desertas, à noite e com objetos contundentes de alto poder de letalidade. E a expectativa de vida dessa população é de até 35 anos – ou seja, menos da metade da expectativa de vida da população brasileira que é 76,6 anos (IBGE, 2024).

Outra característica desumanizadora da transfobia à brasileira é o ódio desmedido contra os corpos das pessoas transexuais e travestis, bem como a negação do direito à vida, impondo-lhes a invisibilidade social e a letargia estatal, que reforçam a repulsa, o preconceito e a discriminação a essa população.

 Esse contexto se revela no modus operandi dos assassinos, através de uma brutalidade inenarrável para transfigurar os corpos das pessoas transexuais e travestis, com o uso excessivo de várias formas de violência e requintes de crueldade.

O dossiê alerta, também, para outro ponto que é a dificuldade para analisar os casos de assassinatos por transfobia, pois dificilmente as autoridades, no momento de identificação das vítimas, oficializam as mortes como sendo devidamente casos de pessoas transexuais ou travestis.

Mesmo considerando a possibilidade de subnotificações de casos, através do número de mortes em cada região do Brasil, o “dossiê ANTRA” detalha o atual panorama regional no país da transfobia, isto é, localiza onde se mata mais pessoas transexuais e travestis.

Nesse sentido, o 1º) São Paulo, com 16 assassinatos de pessoas trans; 2º) Minas Gerais, com 12 ocorrências; 3º) Ceará, com 11 casos; 4º) Rio de Janeiro, com 10 assassinatos; 5º) Bahia, Mato Grosso e Pernambuco, com 8 casos cada; 6º) Alagoas, que registrou 6 ocorrências; 7º) os estados do Maranhão, Pará e Paraíba, com 5 assassinatos cada; 8º) Piauí e Rio Grande do Sul, com 4 casos cada; 9º) Espírito Santo e Santa Catarina, com 3 assassinatos cada; 10º) Goiás, Rondônia e Sergipe, que registraram 2 casos cada; 11º) Amapá, Amazonas, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Paraná com 1 assassinato cada.

Além disso, foi identificado um caso de assassinato de pessoa trans, cuja localização não pôde ser determinada e houve ainda um assassinato no exterior. Nos estados do Acre, Rio Grande do Norte e Roraima não foram encontrados registros de assassinatos por transfobia em 2024.

Diante desse quadro de barbárie exige-se a união da sociedade e do Estado. Primeiro, para reconhecer a gravidade e as consequências da transfobia e, segundo, elaborar políticas públicas intersetoriais de enfrentamento à transfobia. Segundo a presidenta da ANTRA, Bruna Benevides, “mesmo com a diminuição dos homicídios urgem políticas públicas mais efetivas de combate à violência contra a comunidade trans”.

Portanto, é fundamental a construção de ações efetivas contra a transfobia, como ações educacionais e políticas transversais, dispor recursos, mecanismos de denúncia e o acesso à justiça, para a promover e garantir a cidadania e os direitos trans.

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