Quinta, 15 de janeiro de 2026, 03:09

Xadrez na Política

PAZ

Um pacto social pela paz

Arnaldo Eugênio DOUTOR EM ANTROPOLOGIA

O medo social causado por crimes violentos no Brasil desafiam os governos, atormentam a sociedade, amedrontam as famílias e instigam os agentes públicos, estimulando diversas análises dos fatos, como se acontecessem por acaso; ou atos apocalípticos; fossem obra da natureza; caíssem da “arvore dos acontecimentos humanos” (Karl Marx, 2011) e outras.

Nesse contexto de medo social se estabelece uma relação iminente entre a violência difusa, a insegurança individual e coletiva e as variações dos índices de criminalidade e de violência, como um dos fenômenos sociais mais inquietantes do mundo atual (Gauer, 1999).

Por isso, surgem ideias críveis e outras dissonantes, tentando justificar, por um lado, a adoção de medidas pontuais, ríspidas, ostensivas, súbitas e até castração química. E, por outro lado, a construção de políticas públicas de prevenção ao crime e o fomento de uma possível e necessária “cultura de paz”, via um pacto social.

Especificamente, considerando a obra “O Povo Brasileiro − A formação e o sentido do Brasil”, de Darcy Ribeiro (1995), onde mostra que a formação do povo brasileiro foi calcado num processo violento, questiona-se o que alguns idealistas estão chamando de “cultura de paz”. E existe uma “cultura de paz”? 

A cultura se refere a uma estrutura suprabiológica que auxilia o ser humano a mediar sua relação com o mundo físico, social e simbólico. Segundo o sociólogo Jonathan Turner (1999), a “Cultura é um sistema de símbolos que uma população cria e usa para organizar-se, facilitar a interação e para regular pensamento”.

Na antropologia, a cultura é um conjunto de práticas, de valores, de conhecimentos, de crenças, de elementos simbólicos e de materiais produzidos, trocados e transformados pelos seres humanos nas sociedades − as instituições sociais, a arte, a literatura, a religião, o idioma, os costumes, a tecnologia etc.

Em se tratando de crimes violentos no Brasil – p.ex. os intencionais −, a ideia de “cultura de paz” está em oposição à de “cultura da violência”? Então, existe, e perdura, uma sociedade com uma “cultura da violência” e, do contrário, conhece-se uma sociedade exemplar que vive dentro de uma“cultura de paz”?

Para a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), a “cultura de paz” é um conjunto de valores, modos de comportamentos, atitudes que rejeitam a violência, e priorizam o diálogo e a negociação, para prevenir e solucionar conflitos, agindo sobre suas causas. E a “cultura da violência” é aquela que conduz a sociedade contemporânea a uma orgia de sadismo e crueldade, que se naturaliza e banaliza, com a violação e o desrespeito à integridade de outrem (Pozzebon, 2012).

Assim, os que defendem a “cultura de paz” rejeitam a violência e acreditam no diálogo para a solução dos conflitos; os que falam de “cultura da violência” defendem que os crimes têm ancoragem numa “cultura” regada de “violência”; e os paladinos da “bancada da bala” que falam em “combater as situações de violência”, nos remetendo à ideia de guerra, deterror, de inimigo e não à de paz social.

Ora, a violência é um fenômeno sociocultural complexo,multidimensional, pluricausal, com especificidades de formas em cada momento histórico, podendo vim diretamente do Estado, do autocídio, pelos grupos dominantes ou criminosos comuns (Marcia Costa, 1999). Enquanto a cultura diferencia uma sociedade de outra, pela interação dos indivíduos com o meio e demais membros da sociedade.

Logo, é inteligível fundar, no Brasil, um pacto social pela paz do que forjar a ideia de “cultura de paz” em oposição a uma “cultura da violência”, que usa a força e não uma comunicação não violenta. Ou seja, é necessário mudar uma mentalidade.

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