PESQUISAS À MODA DA CAUSA - Xadrez na Política
Domingo, 26 de maio de 2024, 00:29
Xadrez na Política

PESQUISAS À MODA DA CAUSA

Para tanto, em todo ano eleitoral, devemos ter atenção redobrada, pois todas as pesquisas de intenção de voto têm muitos propósitos subjacentes.

No contexto da política brasileira há muitos fatos curiosos que envolvem as eleições, dentre eles está a enxurrada de pesquisas de intenção de voto – umas sérias e outras pesquisas à moda da causa –, que influem na dinâmica de votação. As primeiras servem para orientar no planejamento dos partidos e as segundas se moldam ao gosto do freguês, à serviço de interesses escusos, isto é, não são confiáveis e constituem crime eleitoral.

O tema está disciplinado na Lei nº 9.504/1997 (Lei das Eleições) e na Resolução nº 23.600/2019 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isto é, para ter validade todo levantamento de intenção de voto através de pesquisas, realizadas a partir de 1º de janeiro de 2024, deve ter prévio registro na Justiça Eleitoral antes da divulgação. Ressalte-se, porém, que a Justiça Eleitoral não realiza o controle prévio sobre o resultado das pesquisas nem se responsabiliza pela divulgação.

Durante o período eleitoral é notória a realização e a divulgação de inúmeras pesquisas eleitorais sérias e outras nem tanto, duvidosas ou falsas, mesmo considerando que a divulgação de pesquisas fraudulentas constitui um crime, punível com detenção de seis meses a um ano e multa. Tanto que, em muitos municípios a polícia investiga compartilhamento de pesquisa eleitoral supostamente falsa por funcionários de instituições públicas e privadas.

Empiricamente tem-se percebido que em muitos municípios brasileiros, as pesquisas eleitorais intermináveis ou as pesquisas à moda da causa têm chamado mais atenção, não pela qualidade dos dados aferidos, mas pela quantidade. Ao que parece, o objetivo não é diagnosticar a realidade de um momento político local, mas manipular o senso comum do eleitorado para interferir, de modo ilegal, na vontade popular, no pleito eleitoral e na disputa das candidaturas partidárias. 

No caso das “pesquisas à moda da causa”, além de mentirem e mascararem sobre a realidade dos fatos, burlam a lei, caloteiam quem paga e sabotam o pleito eleitoral. Por isso, são um desserviço público, agem contra a lisura na política e depreciam a democracia no país.

As “pesquisas à moda da causa” são como um “cardápio de feira”, que encantam os olhos da gula do freguês pela quantidade, mas não alimentam a fome do comensal por sabedoria política. Elas são como um manancial de água no deserto, que avistamos ao longe durante uma caminha exaustiva: uma ilusão. 

O objetivo das “pesquisas à moda da causa” é condicionar o eleitorado aos interesses espúrios do cliente comprador. Elas buscam sugar a completa atenção, fragmentar o senso crítico, manipular a decisão do voto coletivo e interferir no resultado das eleições, por meio de armadinhas matemáticas.

Porém, não devemos demonizar a Estatística por causa do seu mau uso nas “pesquisas à moda da causa”. Pois, a estatística (e os estatísticos) pode ser utilizada para o bem da coletividade – p.ex. solucionar problemas complexos; identificar comportamentos; descobrir os padrões de uma doença; testar hipóteses científicas; tendência de mercado etc.

As “pesquisas à moda da causa” são realizadas e divulgadas para que os eleitores e as eleitoras se identifiquem e sejam dominados pelo canto da sereia do irracional. Por isso, urge estarmos livres dos condicionamentos impostos pelas “pesquisas à moda da causa”, para que cultivemos uma sabedoria política e, assim, votarmos com lisura, convicção, consciência, clareza e serenidade.

Para tanto, em todo ano eleitoral, devemos ter atenção redobrada, pois todas as pesquisas de intenção de voto têm muitos propósitos subjacentes, seja para auscultar a vontade popular de forma quantitativa e/ou qualitativa ou, intecionalmente, induzir, iludir, calotear, enganar e domesticar o eleitorado.

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